Ao que tudo indica,
serei novamente dono da dor
ou a dor dona do meu verso,
dos meus dias: até quando?
Deve ela desaparecer o quanto mais rápido
mas não posso negar que se me consome em desespero,
sou em quem devo esperar
até que ela se decida por nova trégua,
nova légua caminhar de mim para longe,
ter-se nuvem a espraiar nos confins dos maremotos.
Moto de vida, contínuo de estar,
constar subvivo de espécie,
respiração do anjo que sente junto,
está para a ordem do dia
correr e desaparecer paradeiros.
A. Nassaralla
25/07/18
terça-feira, 24 de julho de 2018
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
FILHAS (OS) DE PORRA NENHUMA
Por: Edu Planchêz
Apago todas as minhas palavras com palavras,
já que não paro de falar,
que a tagarelice se opõe ao meu silenciar,
e é entre as palavras que encontro silêncio,
que abro um novo portal,
estou a empurrar a emperrada porta da existência,
The Doors 1967 rasgando os nenhum motivos
para manter vivo em mim o último passado
de paixões complexas,
Jim Morrison grita, eu grito,
grita Diego El Khouri e Alvaro Nassaralla,
grita Tiça Matta, grita Catarina Crystal Blues,
grita Rosa Maria Kapila
e todos os outros filhos da argila
Nascidos no barro, na borra,
na mancha alucinada William Burroughs,
nascidos e morridos,
em decomposição composição cósmica humana
Viemos da fumaça da mais deliciosa maconha,
agarrados no rabicho, no filete da lâmpada,
ou mesmo das catapultas das paredes
do cérebro metáfora Renato Russo...
e o Doors segue solto
pelas flanelas orientais
que nos acaricia
o sexo e os ouvidos
Mas voltando a tagarelice,
e o silêncio estrondo ejaculado por ela,
voltando ao pináculo da alta floresta do darma
de nada fazer sentados nus no muro das herdades
Pelos meandros dos esmiuçados olhos
que nos unem ao porrete, a porra,
ao dramático e arrombante rock sem pai nem mãe
E foda-se essa civilização eunuca
gestada pela gosma televisiva;
que todos se dopem com essas palavras
arrombadas filhas de porra nenhuma
terça-feira, 6 de setembro de 2016
Chacal e a reunião de sua poesia de 1971 a 2016
Confortavelmente sentado na livraria, peguei do exemplar Tudo (e mais um pouco): Poesia Reunida (1971-2016), que como o nome diz compreende todas as publicações nesse período do poeta carioca Chacal.Pude ter uma visão geral da imprescindível importância de se batalhar poesia nos anos 70 (repressão militar) e 80 (período de muita alienação provocada por um comportamento quase psicótico de grande parte da sociedade brasileira).
A poesia de Chacal, como um todo, me impressiona pelo acabamento e ritmo suave, quase que escondido, correndo por trás dos versos. O vigor se mantém até os dias de hoje como no Alô poeta (2016), o mais recente livro que já vem na citada reunião.
Vou deixar um dos poemas que mais gostei.
convalesço
dos males que me infligi
das noites que não dormi
mulheres que em vão amei
convalesço
da vertigem que fiz de mim
do cavalo que quis meu fim
vida que desesperei
restabeleço contato
com tudo que quis pra mim
com o tanto que um dia eu fui
com o tal que desaprendi
restabeleço contudo
com tato tempo e afeto
com nada chamado pressa
nem nunca de outra de horror
com calma amanheço
da delirante noite do ópio
da nebulosa treva tenebrosa
do uivo lancinante do demente
amanheço
com a boca seca da miséria
com o lábio rachado do pavor
com o cinzeiro entupido de visões
amanheço com calma
CHACAL
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Poetas irmanados
Como em uma irmandade, estamos sempre movimentando as energias criativas de nossas percepções em torno das pessoas que nos inspiram e que se mantêm em alta sintonia de alma. Nesse sentido, Edu Planchêz, poeta radicado no Rio de Janeiro – algo como um dos meus extravagantes preferidos (não que me exclua dessa adjetivação) – escreveu o poema abaixo para meu outro poeta irmanado, Diego El Khouri.
Esse ano também escrevi um poema para o Planchêz (que está por aí nesse blog há algumas postagens atrás, rs) e em anos anteriores ele me escreveu um. Acredito que o reino dos poetas que não buscam agradar aos conceitos burgueses naturalmente se reúnem como uma forma de sentirem-se pertencentes em um mundo estranho.
Falei e agora posto o poema do Planchêz, também publicado no blog de Khouri, intitulado Molho Livre, o qual está lincado no fim dessa postagem para que você possa visitar e conhecer.
DIEGO EL KHOURI, VELHO IRMÃO DE PAJELANÇAS
Por: Edu Planchêz
Diego El Khouri, velho irmão de pajelanças
e caramujas sonolências,
de arbustos e tonéis de ácidos,
aqui vivendo os zunidos das horas, o arrulho da pança
alimentada pelo queijo que acabei de roubar,
continuo o mesmo Zapata, pistoleiro súbito,
homem-tarantula das negruras,
espinhoso escaravelho
Alvuras nas quentes redes dos arcos
onde a iris se esconde,
onde me escondo com minha ama de leite,
das ladroagens da morbidez dos roedores de dinheiro,
da astúcia ornamental dos mulambos da velha família
oriunda da formiga cortadeira e do coco do bandido
do cavalo que nunca leu nem bula de remédios
Caro amigo, os azulejos do nada pestanejam
cá nas ganancias de ver-te em breve
envolto em anéis de ardumes
e sedas embebecidas de perfumes
---
Conheçam o blog do poeta, pintor e fanzineiro dos unders legal, Diego El Khoury, no link: MOLHO LIVRE.
terça-feira, 9 de agosto de 2016
Breve convocação para quebrarmos a matrix
A. Nassaralla (jul/16)
Classe média absoluta
dá-me teu nojo
tua soberba (com fundo falso)
tuas contradições abertas bem embaladinhas
e a novidadeira fútil das suas delícias de butique
tudo dentro do café requentado das ilustríssimas modas
Vá varrer toda a sucata dos dias para baixo do tapete
como varre o restante de hipocrisia
com o qual se reverencia
e perfura seus relógios com distrações de grife,
euforias de estirpe comprada
luxúria de luxo alugado
fazendo de tudo para escapar da referência média
medida social para que a destaque dos habitantes da pobreza
Bichinho de pelúcia
das provas sociais de ascensão.
Sente-se escolhido
dentro de uma ilusão barata e semi-precária,
com suas batalhas que já começam perdidas
em poderes de consumo no crédito oportuno,
rezando terço ou ao relicário para que no fim do mês
os santos o ajudem a saldar despesas contraídas
sempre ao ego concedida
como empréstimo de ostentação
financiada a juros
Classe média absoluta
dá-me o bagaço do que ao rico já entreteve e
agora por pura cópia do que antes não tinha acesso
consome como xepa de shopping ou tour de viagem
um montante de produto e entretenimento alienado
na derradeira tentativa de comprar
a prova social da novidade amarrotada
que você tanto anseia e estima
sem se dar conta de que a mercadoria
com a etiqueta de idiota
é sua próprio CPF, sua própria vida,
sua alma arrendada
Classe média absoluta
dá-me teu nojo
tua soberba (com fundo falso)
tuas contradições abertas bem embaladinhas
e a novidadeira fútil das suas delícias de butique
tudo dentro do café requentado das ilustríssimas modas
Vá varrer toda a sucata dos dias para baixo do tapete
como varre o restante de hipocrisia
com o qual se reverencia
e perfura seus relógios com distrações de grife,
euforias de estirpe comprada
luxúria de luxo alugado
fazendo de tudo para escapar da referência média
medida social para que a destaque dos habitantes da pobreza
Bichinho de pelúcia
das provas sociais de ascensão.
Sente-se escolhido
dentro de uma ilusão barata e semi-precária,
com suas batalhas que já começam perdidas
em poderes de consumo no crédito oportuno,
rezando terço ou ao relicário para que no fim do mês
os santos o ajudem a saldar despesas contraídas
sempre ao ego concedida
como empréstimo de ostentação
financiada a juros
Classe média absoluta
dá-me o bagaço do que ao rico já entreteve e
agora por pura cópia do que antes não tinha acesso
consome como xepa de shopping ou tour de viagem
um montante de produto e entretenimento alienado
na derradeira tentativa de comprar
a prova social da novidade amarrotada
que você tanto anseia e estima
sem se dar conta de que a mercadoria
com a etiqueta de idiota
é sua próprio CPF, sua própria vida,
sua alma arrendada
Marcadores:
alugado,
ascensão,
Classe media,
consumo,
crédito,
estirpe,
financiada,
fútil,
grife,
hipocrisia,
juros,
luxo,
matrix,
modas,
nojo,
ostentação,
pobreza,
soberba,
social
terça-feira, 19 de julho de 2016
DOSSIÊ: POEMAS PARA O NOSSO TEMPO (Revista Cult)
DOSSIÊ: POEMAS PARA O NOSSO TEMPO - Revista CULT - n. 213 - ano: 2016
A revista Cult disponibilizou no seu site o Dossiê sobre poesia contemporânea publicado em sua edição passada.
O dossiê é composto por dois artigos escritos por Heleine Fernandes de Souza e Alberto Pucheu.
Os autores foram felizes em afirmar que os poetas destacados e analisados não representam o que existe hoje em diversidade e qualidade. São apenas uma pequena mostra para que o ensaio pudesse ser feito.
São citados os seguintes poetas (alguns com poemas reproduzidos na matéria):
Angélica Freitas, Bruna Beber, Annita Costa Malufe, Marília Garcia, Sergio Cohn, Ana Martins Marques, André Luiz Pinto, Pádua Fernandes, André Monteiro, Tarso de Melo, Antônio Lazzuli, Mariana Ianelli, Maíra Ferreira, Leonardo Gandolfi e Caio Carmacho,
Além desses nomes, juntam-se outros três com "o trabalho inespecífico entre poesia, narrativa, vídeo, artes visuais e performance, que tem sido feito": Victor Heringer, Laura Erber e Ricardo Domeneck.
Importante também citar dois trechos do Dossiê em que são analisados dois poemas que me chamaram a atenção. O primeiro, "a mulher pensa", no qual a poeta utilizou o buscador Google para achar as sentenças mais procuradas pelas pessoas a partir do tema-título. Heleine Fernandes de Souza assim escreve:
"Na seção “3 poemas com o auxílio do google”, Angélica Freitas faz um ready-made a partir de informações disponibilizadas pelo dispositivo de busca do Google, dando a ver o quão restritivo e proibitivo pode ser um discurso de saber. Segue o segundo poema da série:
a mulher pensa
a mulher pensa com o coração
a mulher pensa de outra maneira
a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante
a mulher pensa será em compras talvez
a mulher pensa por metáforas
a mulher pensa sobre sexo
a mulher pensa mais em sexo
a mulher pensa: se fizer isso com ele, vai achar que faço com todos
a mulher pensa muito antes de fazer besteira
a mulher pensa em engravidar
a mulher pensa que pode se dedicar integralmente à carreira
a mulher pensa nisto, antes de engravidar
a mulher pensa imediatamente que pode estar grávida
a mulher pensa mais rápido, porém o homem não acredita
a mulher pensa que sabe sobre homens
a mulher pensa que deve ser uma “super mãe” perfeita
a mulher pensa primeiro nos outros
a mulher pensa em roupas, crianças, viagens, passeios
a mulher pensa não só na roupa, mas no cabelo, na maquiagem
a mulher pensa no que poderia ter acontecido
a mulher pensa que a culpa foi dela
a mulher pensa em tudo isso
a mulher pensa emocionalmente"
in: Um útero é do tamanho de um punho (2012), de Angélica Freias.
No segundo artigo do dossiê, escrito por Alberto Pucheu, temos o segundo poema que me chamou a atenção:
"Pode ser constatada ainda a presença de um tipo de poesia que não se deseja profunda nem – previno – superficial no sentido habitual dessa palavra, mas que incorpora obsessivamente traços da cultura de massa sem se render a ela e extraindo dela intensidades e humores insuspeitos, como, para dar apenas dois exemplos, a de Leonardo Gandolfi e a de Caio Carmacho, de quem trago um poema de livre-me, sua estreia (2013):
espírito natalino
que seus parentes bêbados não destruam a mesa
vomitem nas samambaias briguem no meio da
ceia no meio da rua à porta do banheiro por
causa de herança da opção sexual do time de
futebol de um dos sobrinhos afastados que até
pouco tempo atrás dividia o quarto com mais
dois universitários de curitiba imagine só a cena
sua vó chorando a morte do poodle da família
dizendo que preferia morrer a ter que continuar
os dias sem ele seu pai introspectivo registrando
tudo ao mesmo tempo com a tekpix última
geração profetizando que se o mundo não acabou
no dia 21 foi por um erro de projeção mas que
deste natal ninguém passará incólume enquanto
os menores rasgam suas caixas e agradecem
a graça recebida as bermudas e camisetas
importadas da feirinha você suando feito um
cavalo enchendo o cu de peru flertando com o
decote daquela priminha adolescente de seios
desenvolvidos e procurando as palavras certas
para se desculpar com a noiva namorada a vida é
assim mesmo meu amor todas as passas são uvas
de águas passadas.
boas festas!"
Agora deixo o link dos dois artigos do Dossiê Poemas para o Nosso Tempo para quem quiser se deleitar!
O indiscreto charme da poesia contemporânea
Fortalecendo a circulação de diferentes preocupações e lugares éticos, a autoria das mulheres toma corpo de um modo inédito na literatura brasileira
Poesia que intervém no tempo
A nova geração de poetas brasileiros dedica-se à criação de afetos, pensamentos, linguagens, gestos
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Canção para a pequena garota azul - Janis Joplin
Assisti ao filme da cantora Janis Joplin e no dia seguinte foi impossível evitar esse poema que saiu como um jorro praticamente completo.
Acho que entendo que os poetas verdadeiros largaram a escola para trás
![]() |
O filme 'Janis: Little Girl Blue' entrou
em cartaz essa semana (12/jul/16)
|
CANÇÃO PARA A PEQUENA GAROTA AZUL
A. Nassaralla (12/jul/16)
à Janis Joplin
Acho que entendo que os poetas verdadeiros largaram a escola para trás
e procuram atender a tudo menos a ela, não é mesmo pequena garota azul?
Tudo menos as regras. Tudo muito, tudo menos as fórmulas.
Tudo menos a teoria. Tudo menos o que não somos,
e o que somos está livre das escolas da humanidade,
está nas estrelas e cadências do Universo,
está no que é impossível de planejar
no caminho dos corações imensos,
serenata de silêncios de grilos
e você cantando Summertime
com as temperanças de seu sexo,
permitindo-se tocar no que está apenas para os deuses:
- sua voz, elixir dos libertos.
Agora, sua obra é para quem procura amor e a si mesmo
nessa terra estranha a nós, os que nos defendemos aos pontapés.
Já passamos há tempos para o lado de lá;
impossível que se volte,
e cheiramos a liberdade sufocante de ser quem somos.
Enquanto uma manhã deleita-se às pratarias do sol dançando brilhos no mar
e tantas outras são-nos estrada para fixarmos o diferente
e o sistema apregoando firmemente que somos desajustados, mal capacitados, coraçãozudos demais para entender de finanças e capitalismos,
de famílias, de costumes, de limites, de ovelhas,
entender pastores eleitos por outros pastores,
tradições, e demais convenções preliminares para o bom funcionamento social,
da ordem e da prudência.
Estaremos de outra forma, apenas cumprindo sinas,
despertando os lados calados de todos, as almas desligadas do mundo
as consciências adormecidas com o 'Boa Noite Cinderela' das mídias.
A garota vai botando a mão das palavras e de seu canto nas cabeças e destrancando
ilusões que eles franquiam, e em toda esquina dos pensamentos
eles estão lá para nos assaltar a vontade própria.
Pequena garota azul
que sua mensagem de potente menina indefesa
continue cantando às gerações,
a esperança de aves no céu,
de que se estar livre também é estar sozinho em si mesmo,
de que seu homem te deixou e você continua chorando
para nunca deixar de amar alguém,
cantando loucamente que "precisa de um homem para amar"
e que se as pessoas que queremos que nos entendam não estão prontas.
O mais importante é seguirmos a missão,
ver nossos corações de dentro para fora,
instinto de filhote na selva,
o caminho das últimas horas da madrugada em que o escuro cede
e as formas vão se tornando mais nítidas.
Isso: nitidez. A isso viemos, a isso entregamos nossa vida:
nitidez, a isso despertamos.
A liberdade tem uma grande dose de nitidez.
Apareça pequena garota azul,
continue sua viagem
sua verdade da estrela livre
aos beijos e abraços com o destino insolente de sua mensagem,
como um passarinho voando e
que avisa, desde já, e, talvez, sua direção seja a diferença,
a única correta:
preencher o que ninguém mais teve coragem,
botar no amor
botar no amor
sua alma inteira.
Assinar:
Postagens (Atom)


