Resenha Crítica do livro Outoneria
Autor: Alvaro Nassaralla
Editora: Confraria do Vento
Ano: 2026
Alvaro Nassaralla desenvolve uma linguagem visceral e cheia de imagens surpreendentes. Sob influência de Augusto dos Anjos, Roberto Piva e dos poetas beatniks, o sujeito lírico que percorre o livro se constrói como um andarilho dos sentidos e das palavras: um "vadio" que se encontra na errância e na observação do mundo.
O procedimento central do livro é a celebração da imperfeição como forma de beleza — ou, na inversão que o próprio texto sustenta, da liberdade como forma de dor. Outoneria é obra intensa, que exige do leitor entrega para adentrar seu universo muitas vezes desconcertante. Não é livro de consolo, mas de confronto: com a linguagem, com o mundo, consigo mesmo.
Construída ao longo de dez anos, a obra materializa poeticamente uma travessia marcada pelo desapego e pela recusa às expectativas sociais. O livro se estrutura em torno de imagens de passagem (estradas esquecidas, portos, rodoviárias) que funcionam como operadores de sentido, símbolos de abandono e renascimento, como neste trecho de "Escolhas":
Todos os portos desse lado me rejeitaram / e me foi ensinado o melhor de não ser eu mesmo. / Quem se atreve a desdizer o tempo – e a perda / de tempo, as escolhas que fazem por nós, / as escolas que cospem o passado nas crianças, / os juros incubados nos glóbulos dos bebês.
O eixo temporal do livro se estende do fim da infância ao presente da enunciação, e o sujeito lírico convoca o leitor a embarcar nessa caravana: o outono como fluxo eterno, ciclo de decadência-ascensão.
Do começo da queda para o renascimento
O livro se organiza sobre uma inversão de valor: somos feitos de passagens, fragilidades, imperfeições, retornos, e Nassaralla transforma em potência o significado de "começo da queda" — associação tradicional do outono. Não é lamento, e sim entendimento da necessidade das decadências.
É a ideia de estar de passagem — a impermanência total — que sustenta a provocação central do livro: a de que devemos ser errantes da vida, sempre em busca de verdades, sem nos deixar cristalizar por certezas, como exercício de não-pertencimento e estranhamento. Para a voz que atravessa os poemas, somente assim se pode almejar alguma liberdade, mantendo-se desperto para não cair no torpor de nossos tempos de entretenimento total. Essa luta por manter o domínio da consciência está exposta em "Carma e Dharma":
Meu saturno e minha indecência: / avistar ao longe o jade dos peregrinos, / apostar grandeza no dia que cai, / ganhar outono na própria cura e carvão (...)
E em "Cais Baldio", o livro enuncia sua própria poética:
Tenho, então, uma única – e somente – regra / de como poderia a poesia se salvar: deve estar, / ela, livre para surfar e surtar palavras (...)
Os poemas recusam a leitura e o entretenimento fácil e convidam o leitor a ocupar novamente o lugar de sujeito de sua própria experiência — a perceber fissuras, a resistir ao embrutecimento que converte cidadãos em consumidores. O procedimento de saturação adjetival e neologismo produtivo — "extravagados", "pu-pu-pu-púrpuras extravocacionados", "poentes ultraexpratriados" — não é ornamento: é a própria forma pela qual o livro dramatiza o excesso de sentir que defende.
Um chamado contra a dessensibilização de nosso tempo
Num tempo em que a sensibilidade é gerenciada por algoritmos e as emoções são transformadas em produto, Outoneria insiste no gesto radical de sentir demais. É um chamado à lucidez num mundo que prefere a letargia e o consumo.
O poema "Da arte de ser incurável" escancara essa saída pelos excessos e pelo sentir profundo:
A arte de ser incurável / a poesia que só os atormentados podem entender / acontece quando a primavera vem toda ensanguentada (...)
A proposta de Outoneria é convocar o leitor para o resgate da sensibilização como forma de resistência ao entorpecimento de nossos tempos — um levante contra a indiferença, ou, pelo menos, um chamado para vencer a anestesia emocional. Já será um bom começo.

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