sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O poeta líbio que viveu nos Estados Unidos - Khaled Mattawa


Descobri o poeta Khaled Mattawa ao folhear um livro na livraria. Dei de cara com o poema Lactorium e fiquei chocado com a semelhança de ideias que temos. Compartilho muitas compreensões com Mattawa: no meu caso, através de leituras e, no caso do poeta líbio, por ele viver e ter amadurecido nos Estados Unidos. 

O poema Lactorium (abaixo) me impressionou pela amplitude da visão de mundo contemporâneo do poeta, além de sua crítica ao sistema norte-americano de vida, e de sua política externa assassina. Está tudo nesse belíssimo poema, onde Mattawa utiliza uma linguagem que seria para ser irônica, mas que ele brilhantemente a transmuta para algo muito sensível. Ele apenas se vale desse recurso tonal para evidenciar e humanizar sua crítica.

Lactorium
Por Khaled Mattawa

E sua falta de coração e seu desejo por mentiras são leite para mim
E sua autodestruição e seus bodes expiatórios são como leite para mim
Como sua cólera e sua recusa em pagar impostos seu desejo de comprar coisas baratas são como leite      
E suas guerras sujas e seus drones são como leite para mim
Porque as palavras "danos colaterais" e "subproduto" são tão brancas
E sua ansiedade e sua depressão e seu plástico e sua incapacidade de reconhecer
A culpa sobre um certo nível de influência é tudo tão espesso e cremoso
E sua tolerância por injustiça violenta eu bebo isto eu bebo essa espuma densa
E seu atirador ativo é como leite branco para mim e seu racismo é um tipo de leite
E o assassinato de crianças é corno leite para mim o corpo abandonado na rua é como leite
E seu sexismo é como leite para mim sua cultura do estupro
E sua proteção do agressor que é branco e homem é exatamente como leite para mim
E sua adoração aos mais ricos e mais poderosos é como leite para mim
E os anos em que você não trabalhou por urna cura para essa doença porque
você execra esses doentes essas décadas tão longas são como leite para mim
E suas armas são corno leite para mim suas armas preciosas mais preciosas que qualquer coisa
E o sangue dos mortos é como leite de mãe para mim esse derramar
De branquidão os nomes dos mortos e dos enlutados eu continuo engolindo
E sua proteção dos interesses corporativos e dos bancos é como leite para mim
E seu sistema racista de prisões privatizadas é como leite para mim
E seu sistema inadequado de saúde é como leite para mim
E seu sistema educacional com pouca verba é assim como leite para mim
E a palavra pálida "viciada" apaga tudo
E a justiça tem uma bandagem branca sobre seus olhos arrancados
E a palavra "indocumentado" é cheia de vitamina D
E sua força aérea e sua marinha são como leite com toda a branquidão que você derrama nelas
"Áreas de Conflito" por "estabilidade" derramando se alastrando acobertando
E as lágrimas daqueles dormindo em papelões e trapos sob os viadutos leite salgado
Porque o termo "sem-teto" é como a palavra leite eu o bebo e bebê-lo é como
Beber a luz do sol e faz os os ossos fortes e os dentes os dentes
E a frase "não consegue se manter num emprego" é como leite para mim
E seu bullyng e sua maneira de humilhar de todas as maneiras que ferem o espírito é como leite para mim
E sua adoração ao fascista e  seu apoio ao ditador são frios como o leite frio
E dívidas educacionais e uma estrutura catastroficamente se deteriorando e uma infraestrutura catastroficamente se deteriorando
E seu amor pelas mentiras do legisladorzinho são assim como leite para mim
E suas prescrições para analgésicos e suas recargas e suas novas prescrições
E seus medicamentos para ajudá-lo a cagar e ajudá-lo a parar de cagar e as pílulas antiansiedade e os antidepressivos que não estão mais fazendo efeito e os novos antidepressivos que podem estar fazendo efeito ou não e cada companhia farmacêutica pressionando médicos a prescrever mais analgésicos branco branco
Branco e seu desmatamento e sua mineração e seu fracking e suas plataformas de perfuração e todos os lugares arruinados
Para sempre é agora o que foi arruinado pra sempre e inabitável é assim como leite para mim
E o fim de linguagens culturas espécies conhecimentos modos de vida é como leite para mim
E seu desdém e autopiedade e medo são também como leite para mim
E todas as vidas atrofiadas deformadas pelas suas mentiras e suas necessidades
imaginárias são como leite para mim eu bebo e estou bebendo eu engasgo e continuo
nesse sem fim de branco no branco no branco bandeira desenrolando gotejando da borda do nada no nada para sempre fedendo a metano

O poema faz parte do livro POESIA VISUAL 5: A POESIA ESTADUNIDENSE CONTEMPORANEA, Editora Confraria do Vento, em coedição com a produtora cultural Fioretti e o Centro Cultural Oi Futuro.

Segue a biografia do poeta Khaled Mattawa, nascido em 1964, traduzida do site Poetry Fundation

BIOGRAFIA

"Nascido e criado em Benghazi, na Líbia, o poeta Khaled Mattawa mudou-se para os Estados Unidos ainda adolescente em 1979. É bacharel em ciências políticas e economia pela Universidade do Tennessee, mestre em Mestrado pela Universidade de Indiana e doutorado pela Universidade do Tennessee. Universidade Duke. 
Influenciado por Milan Kundera e Federico García Lorca , bem como pelos poetas árabes cujo trabalho ele traduz, a poesia de Mattawa freqüentemente explora a interseção entre cultura, narrativa e memória. Em entrevista no ano de 2007, abordando a conexão entre a sua emigração da Líbia para os Estados Unidos e sua poesia, Mattawa observou: “Eu acho que a memória era muito importante para o meu trabalho como estrutura, que o tom da lembrança, ou a posição de lembrar, é muito importante. Era uma maneira de falar quando eu estava entre decidir ficar e não ficar; e eu decidi ficar. ” 
Mattawa publicou várias coleções de poesias, incluindo Tocqueville (2010), Amorisco (2008), Zodiac of Echoes (2003), e Ismailia Eclipse (1995). Traduziu numerosos volumes de poesia árabe contemporânea, incluindo o Concerto al-Quds (A República Mundial das Letras de Margellos) (2017), de Adonis Pastor da Solidão: Poemas Selecionados de Amjad Nasser (2009), e Miracle Maker: Poemas Selecionados de Fadhil Al-Azzawi (2004), além de coeditar as antologias Dinarzad's Children: An Anthology of Arab American Fiction (2004) e Post Gibran: Anthology of New Arab American Writing (1999). Seu próprio trabalho também foi amplamente antologizado. 
Mattawa foi premiado com vários Prêmios Pushcart e o Prêmio PEN de Tradução Literária, além de uma bolsa de tradução do National Endowment for the Arts, uma bolsa da Fundação Guggenheim, o Alfred Hodder Fellowship na Universidade de Princeton e uma bolsa MacArthur. 
Editor do Michigan Quarterly Review, ele ensinou na Universidade de Indiana; Universidade Estadual da Califórnia, Northridge; e a Universidade de Michigan".

Leitura da hora de dormir para a criança por nascer
Por Khaled Mattawa


Muito depois do sol cair no mar
e o crepúsculo escapar do horizonte como uma folha de veludo
e o ar ficar encharcado de escuridão;
muito depois de as nuvens pairarem acima como pedregulhos
e estrelas rastejarem e estudarem o céu;
muito tempo depois que os corpos se enroscaram, dançaram e vacilaram
e a fadiga os soprou e dobrou
e dormir descarregando seus sonhos e os amassando
e os dormentes mergulhando nos rios dentro deles,
uma garota destrava uma janela
anda sem sapatos em uma floresta,
seus cabelos escuros, uma bandeira ondulando na escuridão.

Ela entra na floresta, seus pés pisando luz
através de poças, sobre a terra dura,
através de colinas gramadas, sobre paus e seixos
sobre a areia encharcada de dia, pedras banhadas pelo sol
sobre lagos e riachos frios
através de ruas calçadas
praças escuras e pastos empoeirados.
Ela corre do nada, corre para o nada
além da dor, além de cemitérios e clareiras.
No escuro, os olhos de criaturas assustadas
brilham como uma manada de velas.
Eles espalham e dão à noite seu significado.

Qual o eco de um sino a embalou
que espírito, que cheiro de palavra
cuja tempestade a escreveu
quais bancos caíram para afogá-la
qual estrela do sangue
qual fio de água
que gota de luz
cujo coração está sendo lançado
cuja alma flutuante a seduziu
que promessa a fez
cuja memória a queimou
cuja oração ela correu para responder
cuja ajuda, que coágulo de tristeza
que dor represou dentro dela
qual parede ela deve reconstruir agora
cujo tesouro a chama
quem espalhou a hera como um véu para cegá-la?
As mentiras do alvorecer a acorrentaram a uma parede azul
de onde as estrelas caem
e perdem todo o significado.

Ela corre por aldeias que perderam seus nomes
estradas que perderam seus destinos
mares que perderam suas bússolas e marinheiros
rios que perderam seus pântanos e viajantes
casas que perderam seus dormentes e gritos
árvores que perderam suas músicas e sombras
jardins que perderam suas violetas e bancos
vales que perderam seus vermes e agricultores
montanhas que perderam seus profetas e saqueadores
templos que perderam seus pecadores e torres
relâmpago que perdeu sua prata e fios
quimeras que perderam suas pontes
minotauros que perderam suas fontes.
Luas crescentes pairam acima dela,
penas brancas antigas, sem pássaros, sem asas
perdidas para o seu próprio significado.

A música surge de sua visão.
Está uma parede coberta de musgos de prata.
Um clarinete soa uma égua ferida
violinos mulheres que perderam seus filhos.
Flautas sopram suas brisas quentes e secas.
Os tambores riem a risada incessante da terra.
Pianos estão murmurando feiticeiros
chamando espíritos e poderes.
Violoncelos mastigam os sons do trovão.
Dulcimers (*) pulam de muletas.
Pistas de dança piscam suas facas
ousando seus dançarinos.
Palavras se espalham pelas ruas como órfãos.
Então um alaúde começa a gemer
e o amanhecer perde seu significado.

Garota da noite, garota da noite
seu livro está cheio agora.
Você desenhou todas as fotos.
Você já viu muitas choradeiras.
Estrelas mantinham seu céu no lugar e luas
flutuavam em seus lagos e os lavavam.
Quando um pássaro canta
quando galhos orvalhados inclinam a luz solar para os olhos
quando as cortinas estão encharcadas de luz
quando espelhos se afogam nas sombras,
leve o seu dia para a praia, minha criança.
Coloque as palavras que dispararam o seu despertar,
espalhe-as na areia como sementes,
depois, com os pés, bata suavemente nelas
e deixe as ondas brilhantes
receber sua mensagem.


(*) Dulcimer - Instrumento de cordas originário do oriente médio e que chegou na Europa durante a Idade Média.


Original em inglês: Poetry Fundation



Khaled Mattawa, "Bedtime Reading para a criança não nascida " de Amorisco. 

Copyright © 2008 por Khaled Mattawa. Reproduzido com permissão da Copper Canyon Press, www.coppercanyonpress.org.
Fonte: Amorisco (Copper Canyon Press, 2008)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019


Vou deixar três frases de Manoel de Barros e a dica do livro onde achei entre tantas outras pérolas do poeta:

  • "Poeta não é necessariamente um intelectual; mas é necessariamente um sensual".

  • "Palavra falada não é capaz de perfeito. E eu tenho orgulho de querer ser perfeito".

  • "Depois a degustação do 'Eu' de Augusto dos Anjos que me deixou na boca um sabor de gênio e de susto".

As citações encontram-se em "Encontros - Manoel de Barros". O livro faz parte da coleção Encontros da Beco do Azougue.


Organização: Adalberto Müller / Apresentação: Egberto Gismonti




domingo, 27 de janeiro de 2019

Cachorrada Doentia - Fausto Fawcett em plena forma criativa


CACHORRADA
DOENTIA
É FICÇÃO
CIENTÍFICA
PSICOBÉLICA
DE TERCEIRO
MUNDO
TOTALMENTE
EXCITADA

Genial e em plena produção criativa, Fausto Fawcett lançou o show Cachorrada doentia na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro (18 e 19/jan/2019).

Romancista e letrista, Fawcett continua mandando ver com seu espírito crítico numa construção poética que assimila e mistura acontecimentos políticos, econômicos e sociais do mundo aos nossos  pequenos e provincianos fenômenos sociais. 

Por exemplo, em "Jihad Zona Oeste" (mais abaixo) uma menina moradora da zona oeste do Rio se revolta com criminalidade vinda de todos os lados, traficantes e milicianos, e implanta uma guerra santa para combatê-los.

Já em "Patricinhas vorazes" (também mais abaixo), milionárias se drogam inalando uma substância chamada crack vuitton, e exploram o mundo sendo donas de bancos de dados, os Big Datas obtidos através da concentração de dados que as pessoas deixam ao se cadastrarem em sites, aplicativos, etc.

O show tem três atos onde as letras são recitadas com a banda tocando junto, e vídeos reproduzidos no telão ao fundo.





Patricinhas vorazes (damas do big data)
Laufer e Fausto Fawcett
Uma imensa fogueira surge num canto da cidade
Não é a klu klux klan, não é São João não é a inquisição

Em volta dela dançam e cantam mulheres muito ricas que inalam uma substância feita especialmente para elas crack vuitton

Patricinhas vorazes
Dondocas da escuridão

Mulheres de cuspe caríssimo 
As novas Marias Antonietas

Muitas delas são herdeiras pra caralho, se sentem canonizadas de tão ricas e mimadas desde o berço. Outras não. Nunca tiveram berço. São mimadas desde pequenas
mas tem milhagem de superação da miséria. São cascudas de valor. Mas mesmo na miséria, na pobreza tinham o nariz empinado. Autênticas pobreths roitchmans. Outras são classe média apesar de média não terem nada. Todas compactuam da mesma reza, a reza do vou me dar bem, êxtase, poder, grana vem.

Refrão: patricinhas vorazes.... Crack vuitton

Elas são devotas dos sobrinhos do patológico - euzinho, eguinho e myselfzinho. Também gostam de mandar para o instagram fotos da nudez amassada. Elas nuas dentro de máquinas de lavar inalando Crack vuitton

E de que maneira elas honram a tradição de ócio e extravagância da primeira Maria Antonieta?
De três maneiras: sendo acionistas da sustentabilidade pois o negócio da consciência social e da ecologia dá a maior grana e muito prestígio. Segundo sendo donas de bancos
de dados pois as pessoas viraram iguarias estatísticas, iguarias algorítmicas num mar de informações. Elas se intitulam as damas do big data.

A terceira forma de honrar a primeira Antonieta é ter uma formação, uma educação, uma formação que ninguém em larga escala jamais terá pois elas sabem que quando mundo tiver quinze bilhões de bonecos só duas turmas vão se defrontar: a dos exclusivos radicais e a dos desperdiçados mais radicais ainda.

Patricinhas vorazes.....

Dessas três maneiras de honrar a primeira Antonieta a que ela mais gostam é a apropriação humana oferecida pelos bancos de dados. Damas do big data elas são manipulando, vendendo, gerando, contrabandeando dados. As pessoas viraram iguarias estatísticas, algorítmicas. As patricinhas gostam de pensar que são as imperadoras do coliseu digital em que se transformou o planeta com as cidades sendo arenas de likes e dislikes. É Polegar pra cima é polegar pra baixo de acordo com o seu cadastro genético ou comportamental... Cadastro.

Refrão: patricinhas vorazes... Crack vuitton

Elas são devotas dos sobrinhos do patológico-euzinho, , eguinho e myselfizinho. Também gostam de mandar para o instagram fotos da nudez amassada. Elas nuas dentro de máquinas de lavar inalando Crack vuitton

Coliseu digital
Ser humano iguaria estatística 
Novas marias Antonietas 
Patricinhas vorazes



JIHAD DA ZONA OESTE
Fausto Fawcett, Fabio Caldeira e Gabriela Camilo


Garota de Bangu, fina flor do Senai. Garota prendada mas fascinada por guerras santas, cruzadas, Jihads

Guerras santas que ela oculta no seu coração

Transformando sua impressão de que só existem infiéis nesse mundo em cooperação com o próximo Jihad escondida no coração

Mas um dia 
depois de mais um achaque da milícia
Mais um achaque do tráfico
Mais um achaque de bandidos alucinados, assassinatos gratuitos e vizinhos escrotos
Depois de mais uma vez chegar na internet e se deparar com psicopatas da fofura, os fofopatas

Depois de mais um dia assim ela resolveu tomar uma providência 
E promover a Jihad da zona oeste 
Primeiro escolher um hino, uma musica símbolo estimulante Procurou no hip hop, no rap nada 
Procurou no funk proibidão e no rock
Nada
Foi achar na música progressiva dos anos setenta
Grupo Genesis
The knife - a faca
Letra perfeita
Depois escolher um codinome 
Ela se intitulou a granada ansiosa
Seu irmão convocado nem titubeou e se intitulou
O pino de deus
Estava formado o núcleo da jihad zona oeste
Ela fina flor do Senai
Seu irmão exímio trabalhador de loja de ferragens desde pequeno
Os dois juntos formavam um super Arthur Bispo do Rosário bélico 
Criaram um manto cheio de gambiarras explosivas e pontiagudas 
Mas o grande mérito desse manto era a sua capacidade de camuflagem 
Podiam ficar perto de traficantes, de policiais, de milicianos, de fofopatas, de vizinhos escrotos que ninguém perceberia e eles poderiam explodir seus corpos pra purificar a zona oeste 
Fazer a Jihad

A convocação viralizou e milhares de jovens, e não tão jovens assim, atenderam ao chamado para a missão. 
Gente de todos os lugares, ricos e pobres, indo muito além de Jacarepaguá, Bangu, Padre Miguel
Tomando o brasil inteiro

Como a policia impediria os camuflados jihadistas?

Depois da convocação viralizaram vídeos com mensagens para os pais, avós, tios que choravam e
se revoltavam com a atitude da garotada que dizia pra eles nas mensagens: "não se preocupem papai, mamãe, vovó, vovô, titio, titia, irmãos pequenos porque vocês jamais vão entender a nossa intenção explosiva mas devemos dizer que fazemos isso por amor, pois das nossas cinzas a zona oeste, todas as zonas conflagradas renascerão como fenixes desconcertantes. É por amor papai mamãe. Jihad!!

E Peter Gabriel dizia
Diga que minha vida vai recomeçar 
Diga que serei um herói
Uma heroína 
Prometa-me os seus sonhos mais violentos
Ilumine meu coração com a sua raiva 
E quando a palavra definitiva for dita a cruzada, a Jihad começará
agora ( repete )

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Poesia uma hora dessas

O texto está fechado para quem não é assinante, por isso posto como imagem (abaixo). Ele cita Alexandre Durratos (o Xandú dos Sarau Ratos de Versos), poeta nosso irmão. 

A reportagem: "Iniciativas longe dos palácios podem devolver ao Rio sua vocação para a alegria, a festa, as teias de solidariedade e os laços comunitários",. 

Foi escrita pela jornalista Flávia Oliveira. 

O Globo - 19-jan-19



Alexandre Durratos chegando do lançamento 
da Antologia do Sarau Poesia de Esquina, 
na cidade de Deus - RJ, 
reunido pela antropóloga Viviane Sales.




sábado, 19 de janeiro de 2019

O jorro Piva (Felipe Magnus)

esse atraso chamado moda,
esse modismo chamado atraso,
essas propagandas com advertências,
essas escórias que viram polícia,
essas polícias que viram escola,
essas ditaduras impostas pelo 'big brother",
esses apartamentos vazios de Copacabana,
essas estátuas de generais que imortalizam a guerra,
esses cartazes em russo da Riotur,
esse turismo proxeneta que nos sustenta,
essas corporações obesas insaciáveis,
essas bloomberg-viacom-time-warner-globos,
esses impostos dízimo de uma prefeitura igreja,
esses enlatados pop que nos dão azia,
esses recheios que não preenchem,
esses alimentos que não alimentam,
esses mantras que alienam,
esses sorrisos engarrafados em refrescante ácido fosfórico,
esses rotos metais que não nos sustentam,
esses recessos pagos a posteriori,
esses escravaturas disfarçadas de mercado,

Contato de Felipe Magnus que conheci no Sarau Corujão da Poesia em 2018.


Zine do poeta onde estava o poema digitado acima



quinta-feira, 8 de novembro de 2018

kalashnikov (Bruno Sanctus)

kalashnikov (Bruno Sanctus)


nunca conheci um deus que não fosse uma ak-47 carregada,
cujo coração desértico
ecoa a solidão dos cânions.
seu choro, sua língua
pólvora queimada sobre
o lodaçal da fome de mariana.
negligente quanto a própria fé
e de razões obtusas.
sustentado por jargões.
tarô de velha cega
que perdeu o tato.
prece de benzedeira muda
e com alzheimer.
chauvinista para acolá do miserê
pós paraíso,
onde os edifícios fálicos
arranham o céu da boca.
orgulhoso demais para
sacrificar seu cavalo de tróia,
sua moeda sem face,
seu quinhão de guerra;
pois sabe que o ódio
catequiza melhor que a inquisição
espanhola
e os crucifixos apresentam-se
como interface amigável.
como uma proposta faustiana
do qual não consigo rir.
seus beijos são mais insossos
que os votos de sogra.