segunda-feira, 10 de setembro de 2018

PRECE DE UM DIA QUASE IGUAL A TODOS - Ledusha


Deixo hoje dois poemas e mais um bônus no final da poeta paulista Ledusha, da geração de Ana cristina Cesar, mas com menor reconhecimento e, na minha opinião, muita mais expressiva.



PRECE DE UM DIA QUASE IGUAL A TODOS

Deus dos delicados, não me abandone nessa guerra insana. Minha máquina de ser beira a pane enquanto o veludo da voz de Billie lambe as paredes do lusco-fusco. Abençoe, senhor, tudo que dói em nós, indispensável. As tardes despenteadas em Grumari, as lágrimas do homem que me amou e nunca disse, o negro agonizante sob o sol narcísico de Ipanema, as crianças que tão cedo me deixaram farta de lágrimas e leite, o eco esquivo de Frederico, sinais de musgo. Abençoe as escarpas da minha vida enquanto desenterro estas palavras — o carmim destas palavras — com as lascas afiadas da dor. Sonho piscinas, atraída pelas labaredas. Preciso dormir bem dentro das suas asas enormes, pai.

Ledusha B. A. Spinardi





Os que só tragam com filtro. Os que conduzem a dança. Os de papo requentado. Os que espalham o conflito. Os grosseiros de foulard. Os que fazem as cutículas. Os que têm presas no olhar. Os prósperos despreparados. Os que vão lamber o limbo. Os belos atormentados. Os previsíveis sem sal. Os ternos de abraço manso. Os que usam o saber como arma de poder. Os que citam sem parar. Os que gostam de mulheres. Os que gostam das mulheres. Os mitos desamparados. Vampiros por trás de lentes. Os que só querem mamar. Os que portam falos bélicos. Os marinheiros sem mar. Os que nos devolvem o riso. Sensíveis sem onde morar. Os que decifram. Os que devoram. Casados infantilizados. Os que consertam cadeiras. Os indeléveis carnais. Os de coração falido. Raros sexys calados. Os gananciosos banais. Marxistas que espancam mulheres. Os que se desmancham no ar.

Ledusha B. A. Spinardi



BABY LONEST

(Esse poema da Ledusha foi adaptado e musicado por Cazuza e Lobão e gravado no disco "O rock errou" do Lobão em 1986).


Baby lonest
Ninfa do asfalto
Todo o ocidente nos ombros
Que a noite defloram dentes
E depois adormecem

A vida de alôs e beijos
Os sábados na cidade
De Telerj em Telerj
O amor te deixa em cacos

Metade da mesada em fichas
E os corações ocupados

Não chore, honey, não chore
Oh, honey, não chore

Amanhã tem baby lonest
Amanhã tem
Amanhã tem baby lonest
Amanhã tem

Baby lonest
Olhos injetados
Nas pernas daquela avenida
Baby lonest
Sonho de amor suicida
Baby lonest
E os olhos de sangue
Nas pernas daquela menina
Nas pernas daquela menina

Amanhã tem baby lonest
Amanhã tem baby lonest
Amanhã tem

Não chore, baby, não chore
Oh, baby, não chore

Amanhã tem revolution
Amanhã tem 
Amanhã tem revolution
(Poema de Leduscha adaptado por Cazuza e Lobão)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Vidigal: O livro

O músico Beto Dorneles lançou seu primeiro livro, Vidigal, na Livraria da Travessa/Botafogo, no dia 16 DE AGOSTO DE 2018 pela Ibis Libris Editora. Escrevi a orelha desse livros corajoso e revelador. Veja ela abaixo:





Conheci Beto Dornelles quando ele tocava no bar mais sofisticado do Baixo Leblon, a uma quadra do bar onde Cazuza escreveu algumas de suas mais belas letras. Dali para o Vidigal é um pulo: são localidades vizinhas. Mas o que elas têm em comum para por aí.  

Beto morou no Vidigal por pouco mais de três anos, como um bom andarilho da arte. É justamente por isso que ele pôde, com o olhar de quem é de fora, experienciar até o talo a vida na comunidade carioca do Vidigal. Viveu intensamente o que de melhor ... e pior ... o morro pode oferecer. 

A diferenças entre o Baixo Leblon e o Vidigal são dignas do apelido 'Belindia', mistura de Bélgica e Índia, que o Brasil ganhou nos anos 70. Mesmo que o Vidigal de hoje seja um bairro totalmente asfaltado e com todas as construções em alvenaria, ainda existem resquícios culturais de uma comunidade oprimida e que serviu por décadas para abrigar os trabalhadores que serviam à Zona Sul.

Dornelles, corajosamente, põe o dedo na ferida social, inclusive abrindo-se em confissões pessoais que muitos esconderiam a sete chaves. Não poderia deixar de ser diferente para ele, com sua personalidade apaixonada e contestadora. "Na real", como se fala no Rio, Beto desconstrói mitos sobre as comunidades carentes e mostra como lá existem pessoas talentosas, cultas e antenadíssimas, que lutam para fazer a diferença no sistema constituído de forma a mantê-las condicionadas como serviçais da "Casa Grande" carioca.

Rapidamente, com seu carisma, Beto foi considerado um músico local, a despeito do bairrismo dos moradores que pregam, até com certa agressividade, que quem é de fora não é "cria" do morro. Prova disso é que Beto foi o representante do Vidigal no show "tijolo por tijolo", comemorando 75 anos da comunidade, a convite do compositor (e morador) Sérgio Ricardo. No palco, beto abriu o show para os homenageados Chico Buarque e João Bosco, que se apresentaram juntos.
   
No mais, a vida no Rio segue, com mais pessoas se conhecendo no Baixo, como Cazuza escreveu: Conheci um cara num bar lá do Leblon / Foi se apresentando 'Eu sou o Billy Negão' / A turma da Baixada fala que eu sou durão / Eu só marco touca é com o coração" ...

Alvaro Nassaralla


terça-feira, 24 de julho de 2018

Maremoto

Ao que tudo indica,
serei novamente dono da dor
ou a dor dona do meu verso,
dos meus dias: até quando?

Deve ela desaparecer o quanto mais rápido
mas não posso negar que se me consome em desespero,
sou em quem devo esperar
até que ela se decida por nova trégua,
nova légua caminhar de mim para longe,
ter-se nuvem a espraiar nos confins dos maremotos.

Moto de vida, contínuo de estar,
constar subvivo de espécie, 
respiração do anjo que sente junto,
está para a ordem do dia
correr e desaparecer paradeiros. 


A. Nassaralla
25/07/18

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

FILHAS (OS) DE PORRA NENHUMA


Por: Edu Planchêz

Apago todas as minhas palavras com palavras,
já que não paro de falar,
que a tagarelice se opõe ao meu silenciar,
e é entre as palavras que encontro silêncio,
que abro um novo portal,
estou a empurrar a emperrada porta da existência,
The Doors 1967 rasgando os nenhum motivos
para manter vivo em mim o último passado
de paixões complexas,
Jim Morrison grita, eu grito,
grita Diego El Khouri e Alvaro Nassaralla,
grita Tiça Matta, grita Catarina Crystal Blues,
grita Rosa Maria Kapila
e todos os outros filhos da argila

Nascidos no barro, na borra,
na mancha alucinada William Burroughs,
nascidos e morridos,
em decomposição composição cósmica humana

Viemos da fumaça da mais deliciosa maconha,
agarrados no rabicho, no filete da lâmpada,
ou mesmo das catapultas das paredes
do cérebro metáfora Renato Russo...
e o Doors segue solto
pelas flanelas orientais
que nos acaricia
o sexo e os ouvidos

Mas voltando a tagarelice,
e o silêncio estrondo ejaculado por ela,
voltando ao pináculo da alta floresta do darma
de nada fazer sentados nus no muro das herdades

Pelos meandros dos esmiuçados olhos
que nos unem ao porrete, a porra,
ao dramático e arrombante rock sem pai nem mãe

E foda-se essa civilização eunuca
gestada pela gosma televisiva;
que todos se dopem com essas palavras

arrombadas filhas de porra nenhuma

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Chacal e a reunião de sua poesia de 1971 a 2016



Confortavelmente sentado na livraria, peguei do exemplar Tudo (e mais um pouco): Poesia Reunida (1971-2016), que como o nome diz compreende todas as publicações nesse período do poeta carioca Chacal.

Pude ter uma visão geral da imprescindível importância de se batalhar poesia nos anos 70 (repressão militar) e 80 (período de muita alienação provocada por um comportamento quase psicótico de grande parte da sociedade brasileira).

A poesia de Chacal, como um todo, me impressiona pelo acabamento e ritmo suave, quase que escondido, correndo por trás dos versos. O vigor se mantém até os dias de hoje como no Alô poeta (2016), o mais recente livro que já vem na citada reunião.

Vou deixar um dos poemas que mais gostei.




CONVALESÇO

convalesço
dos males que me infligi
das noites que não dormi
mulheres que em vão amei

convalesço
da vertigem que fiz de mim
do cavalo que quis meu fim
vida que desesperei

restabeleço contato
com tudo que quis pra mim
com o tanto que um dia eu fui
com o tal que desaprendi

restabeleço contudo
com tato tempo e afeto
com nada chamado pressa
nem nunca de outra de horror

com calma amanheço
da delirante noite do ópio
da nebulosa treva tenebrosa
do uivo lancinante do demente

amanheço
com a boca seca da miséria
com o lábio rachado do pavor
com o cinzeiro entupido de visões 
amanheço com calma


CHACAL

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Poetas irmanados


Como em uma irmandade, estamos sempre movimentando as energias criativas de nossas percepções em torno das pessoas que nos inspiram e que se mantêm em alta sintonia de alma.  Nesse sentido, Edu Planchêz, poeta radicado no Rio de Janeiro – algo como um dos meus extravagantes preferidos (não que me exclua dessa adjetivação) – escreveu o poema abaixo para meu outro poeta irmanado, Diego El Khouri.

Esse ano também escrevi um poema para o Planchêz (que está por aí nesse blog há algumas postagens atrás, rs) e em anos anteriores ele me escreveu um. Acredito que o reino dos poetas que não buscam agradar aos conceitos burgueses naturalmente se reúnem como uma forma de sentirem-se pertencentes em um mundo estranho.

Falei e agora posto o poema do Planchêz, também publicado no blog de Khouri, intitulado Molho Livre, o qual está lincado no fim dessa postagem para que você possa visitar e conhecer.


 


DIEGO EL KHOURI, VELHO IRMÃO DE PAJELANÇAS
Por: Edu Planchêz


Diego El Khouri, velho irmão de pajelanças
e caramujas sonolências,
de arbustos e tonéis de ácidos,
aqui vivendo os zunidos das horas, o arrulho da pança
alimentada pelo queijo que acabei de roubar,
continuo o mesmo Zapata, pistoleiro súbito,
homem-tarantula das negruras,
espinhoso escaravelho

Alvuras nas quentes redes dos arcos
onde a iris se esconde,
onde me escondo com minha ama de leite,
das ladroagens da morbidez dos roedores de dinheiro,
da astúcia ornamental dos mulambos da velha família
oriunda da formiga cortadeira e do coco do bandido
do cavalo que nunca leu nem bula de remédios

Caro amigo, os azulejos do nada pestanejam
cá nas ganancias de ver-te em breve
envolto em anéis de ardumes
e sedas embebecidas de perfumes


---


Conheçam o blog do poeta, pintor e fanzineiro dos unders legal, Diego El Khoury, no link: MOLHO LIVRE.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Breve convocação para quebrarmos a matrix



A. Nassaralla (jul/16)

Classe média absoluta
dá-me teu nojo
tua soberba (com fundo falso)
tuas contradições abertas bem embaladinhas
e a novidadeira fútil das suas delícias de butique
tudo dentro do café requentado das ilustríssimas modas


Vá varrer toda a sucata dos dias para baixo do tapete
como varre o restante de hipocrisia
com o qual se reverencia
e perfura seus relógios com distrações de grife,
euforias de estirpe comprada
luxúria de luxo alugado
fazendo de tudo para escapar da referência média
medida social para que a destaque dos habitantes da pobreza


Bichinho de pelúcia
das provas sociais de ascensão.
Sente-se escolhido
dentro de uma ilusão barata e semi-precária,
com suas batalhas que já começam perdidas
em poderes de consumo no crédito oportuno,
rezando terço ou ao relicário para que no fim do mês
os santos o ajudem a saldar despesas contraídas
sempre ao ego concedida
como empréstimo de ostentação
financiada a juros


Classe média absoluta
dá-me o bagaço do que ao rico já entreteve e
agora por pura cópia do que antes não tinha acesso
consome como xepa de shopping ou tour de viagem
um montante de produto e entretenimento alienado
na derradeira tentativa de comprar
a prova social da novidade amarrotada
que você tanto anseia e estima
sem se dar conta de que a mercadoria
com a etiqueta de idiota
é sua próprio CPF, sua própria vida,
sua alma arrendada