quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Quando esse navio negreiro passar




Quando esse navio negreiro passar

Leonardo Rocha

Quando esse navio negreiro passar
Vamos ver quem ficará
Onde vamos morar
Senão na própria alegria

O navio é grande
O início não conhece o fim
Enquanto sua imensidão passa
Como se morasse em nosso tempo
Seremos iludidos por uma falsa liberdade

O navio anuncia aos quatro ventos
Os cativos tem seus nomes nos contratos
Proprietários de um calabouço abstrato
Fingem que sentem o ar próspero do amanhã

Quando esse infindo camburão passar
Deixará suas marcas na eternidade
Na carne magra e resistente dos homens
No sexo frágil e banalizado das mulheres

Que seja breve essa passagem
Na vertiginosa retina
E não essa eterna miragem
Enganosa, ilusória e cretina

Todo hospital tem um pouco
De navio negreiro
Todo coletivo tem um pouco
De navio negreiro
Toda delegacia tem um pouco
De navio negreiro
Esquartejando a pobreza em metades
Vendendo os pedaços
Cobrando o preço de inteiro.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Rubaiyyats inspiradas por Omar Alkhayyam

Aí vai uma pérola do poeta Hani Hazime, Coordenador de Língua Inglesa da UFRJ e grande amigo!

Omar Alkhayyam (no ocidente, Omar Khayyan), autor do clássico Rubaiyat)


Rubaiyyats inspiradas por Omar Alkhayyam
Hani Hazime

-- Tivemos tempo bastante,
Para degustar nosso amor
Mas não o soubemos levar adiante
Só giramos ao seu redor


-- Não me importa se a vida me vai
Nem lamento, se meu corpo cai
Que venha a morte,
Eu não soluço nem digo ai
 

-- Apesar de muito tarde,
entre o silêncio e o alarde
Descobri a verdade que me arde
 

-- Entre o tédio que me consome
E o assédio que mata a fome
Eu me transformo em super-homem
 

-- Beba, pois, sua última morada
é a terra derramada, sem amigo e amada
E cheira o aroma da vida na sua alvorada
Porque não floresce a rosa quando fica murcha


-- Apagas o fogo do coração,
pelo frescor da bebida em sua plenitude
Pois os dias são qual as brumas
E nossa vida é ilusão, então tomas
sua sorte, antes que termine a juventude
 

-- Se há de morrer só uma vez ,
então morra logo de vez
Para que fim, viver assim, com receio de revés
Se amei, eu não sei
Se me amaram, não me informaram
Ontem foi outro dia, hoje sigo outra via
Então Beba até chegar à embriaguez
Pois a matéria passa,

mas a essência vive outra vez

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Praia Preta


Por Álvaro Nassaralla

Praia Preta, Ilha Grande (Foto pertence ao Blog Tardes Poemas)

Minha armadura dessangrada de lírios
boia cruel perante céu abusado de carnes:
nasce a meia lua cravando-me o punho no coração
no ritmo das máquinas que empurram a vida
como o amassar de uma manteiga dura
e desaba a metade certeira da verdade
que nada vale aos peixes sob noite limpa:
o riacho cristalino de basalto, de palavras, de pureza
de camadas imantadas,
pousa validade no mar.

Olho o céu como um garimpeiro
coando a via láctea no acento magnésio de estrelas partidas de saudades,
com a febre fria do desenho escorpiano 
ou me abro como a cruz do norte
rios, esquadros e riscos que fazem aos olhos andarem pelo céu
e nos pés a areia, em balbucio, finca-se magnetita, quartzo e feldspato
trocando laminações em degradê entre o branco e o preto
o entroncamento de águas desenhando densidades,
na madrugada que estive em ti.

Praia Preta, que assim te batizaram
confesso
que poeta que imã
vítreo e metal 
sempre estarei grande e pequeno demais
dentro do sedimento magnético que você me flutuou. 

Praia Preta, Ilha Grande
02/02/16

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Borboleta cor de morango - Edu Planchêz

Mais um poema nolvo do poeta-irmão Edu Planchez!


BORBOLETA COR DE MORANGO
Edu Planchêz

ainda posso, ainda tenho o direito de escrever,
de mover a pedra do centro da máquina cabeça
resta-me uma placa, um continente sem nome,
um vulcão adormecido aparentemente;
olho para direita de meus ouvidos,
para a esquerda, para trás e para a frente,
para o inacabado dia
( um está vertido em águia, o outro,
em mil gramas de poeira celeste )
nunca cessa o canto gemido da floresta
dos antigos sonhos de mover nos nosso braços asas
por todo o negro corpo,
por toda a aspereza do ventre da cigarra
despida de todos os véus, 
a borboleta cor de morango se reinventa na flor

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

CÉU CINZA (ou Como os Loucos Amam)

A. Nassaralla
(10/dez/15)

À Inajara


Encrespa-se o mar dotado chumbo
lambendo a superfície da carcaça do dia absolvido na dor
de ser quem se busca em lascas de amor remendado,
ao amor inteiro de quem encontra;
bromélias açucaradas por pavor de dar-se à embriaguez,
que assim aparvalhado é quem ama,
como o é imperdoável quem acompanha o desamor e o sem fim das horas,
o tiquetaquear dos ponteiros trançando-se pernas,
tropeçando a moda de trilhos vergados e elegidos de desvios.

De volta aos amantes,
são nuas as estrelas por cima do céu cinza
como o são as paixões e a delícia da chuva e das trovoadas livres:
agarrar-me a ti como a um último istmo,
última membrana de enseada,
último casquilho de terra,
última lasca de boca à deriva
para um mar que puxa e quer à perdição.

Serão os tons da história
os mesmos para todos os que amaram,
não importa a era,
não importa o sangue,
não importa nada?

O perdão forma o caminho das estrelas
resistentes na madrugada estrebuchante
diante dos que desafiaram o poder dos homens
em nome do amor,
em lume das estrelas cadentes,
acreditando que a vida é o complemento da morte,
e o sonho, a sanidade tecida
e roubada.

Nesses dias de inesperado frescor
eis que dou de cara com a solidão mais legítima
e hoje na vida tenho uma coleção delas,
em partições de almoxarife,
vendo ainda mais 
a noite corrompida de estrelas
e a mancha láctea
a vestir-se com leve seda translúcida 
de mínimo franzido
na sua sutil
ora maior ora diminuta
transparência
contra o fundo do céu.

É nesse sentido tenebroso
que passam agora a perder esses mesmos sentidos.
Estou seduzido num cavalo à disparada de montaria
e com os punhos cerrados batendo-se ao ar,
busco as margens para ver que há o meu amor,
que ela me espera com olhos calmos
e que o mais precioso a se ter
são seus olhos a me fitar
e que, carnívoro, entro na tempestade furtiva e louca
dos perdidos,
lanço-me à rapinagem com as aves mergulhando 
despenhadeiros da miséria humana,
e finalmente - graças,
quedo à força das coxas delicadas 
e do que ela, mulher amada, já sabe para mim,
quando o dela amor fere a turbulência
sangra com luz turquesa os mananciais loucos da ventania
do meu ser,
livra-me novamente de mim.
Desenterra e sagra o meu amor. Tinto.

Acho que o paraíso é isso.

domingo, 29 de novembro de 2015

Lampejos - Hani Hazime


 
LAMPEJOS
(Hani Hazime)

- Coitado o homem, gente de bem
Ele pensa que preenche a mulher
Ao contrário do que ela quer: um só refém,
Ou um tapa-buraco, de seu prazer
- Por todos, é escolhido o homem, pela mulher
mas o homem, escolhe todas, por uma sequer
- Entre CPI e medidas legislativas
Mescla-se tudo, para fazer pizzas
- O patriota idiota, o nacionalista ufano
com voz alta grita:
O país é meu patrimônio
- Quando a morte me tenta, em seu negrume
Embora morrendo, continuo sendo, Hani Hazime
- Porque as flores, não chegaram a tempo
Nosso amor, virou simplesmente, um contratempo
- Liberta já, o teu cabelo
E me concede, um momento de anelo
- Ergue a lona do teu corpo
Sou acrobata que sempre salta a tempo
- Ela procura, o elixir da vida, na calada
E ele quer, o regalo no embalo, e a balada
- Os votos eternos, são selados nos lábios,
Pelos beijos, bem ternos
- A beleza dura pouco, não resiste ao tempo, tampouco
O amor é forte, só acaba, com a morte
- A lágrima da mariposa
Pairou na noitada, e decaiu na alvorada
Bem na palma da rosa.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Cais Baldio: De olho no que ninguém quer ficar

Foto: Blog Tardes Poemas

CAIS BALDIO
(Alvaro Nassaralla - 17/Nov/15)






"Você adora as folhas que caem
no lago escuro
este é o banquete do poeta
sempre
querendo
penetrar
no caroço
da verdade".

ROBERTO PIVA




Cais baldio
vida maruja
sentença sem importância.
Fluxo e refluxo
como se somente o orgasmo de cartas marcadas,
as manchetes manchadas de vícios
e as premissas promíscuas de nome vida
pudessem afugentar crianças mandonas
e elizabeths rainhas de tronos e edredons piratas.

Assim sendo, anuncio o desleixo dos poetas
aqueles que conversam a prosa do estivador, do mecânico,
dos baixios e das alcovas,
e descem aperto à chave 13 de boca e estria na prosopopeia
oficial das faxinas empurronas de caixas e sujeira
para o fundo das oficinas.

Ter-se e dar-se é o comum tornado magnífico
ao garimpar ferros-velhos
como também em busca de sentidos
e desenhos de palavras,
para surfar na descoberta de latarias
onde recortes de maçarico fazem as vezes da junção
e placas moldadas em poliuretano podem fechar a boca
e esperar contextos
mas os consertos e carregamentos não esperam,
e já estão em outra
a cada nova unção da noite que se prepara à deitar,
sendo novas rotinas as únicas que dispensam o novo!?

Então estarão muitos cagando regras de como se relacionar
numa ode direta e simples de raiva,
um prontuário de recalques e entradas sociais permitidas:
_ Os incomodados que se retirem ou
os incomodantes que se redimam?
Pergunta-se:
quem veio para incomodar, inconformar, descondicionar,
destrancafiar,
senão o poeta, os proscritos e profetas,
como Jesus
pregando contra a usura de seu próprio povo,
e as meninas da vida de lida dura
exigindo seus direitos trabalhistas?

Estarão as mocinhas de família fadadas a descobrir
que seus reinos inundam-se de chavões em primeira
instância fantasiosos,
carregados de prerrogativas fru-frus
fechados em dinastias temperamentais
de terem direitos naturais e herdados
preconcebidos diante de suas próprias intolerâncias
de familinha, familhão?

Se assim for, alguém tem de fazer o serviço sujo
de ficar chutando o ar no cais baldio,
mãos nos bolsos,
de olho no que ninguém quer ficar,
falando mentiras que são verdades bem contadas
e/ou não a verdade dos sacos de cereais deitados ao chão
pelos carregadores nos terminais de redistribuição
para o consumidor final.
Estará a verdade apenas nesses sacos
e tudo o que predisponho não passa
de solidão alimentada?
E se caso essa última sim for a verdade,
onde fica a fome em pleno século de
rede e globalização,
em plena era de tudo a um clique de distância?

Acaso essa for uma boa pergunta, afinal
caberia a resposta na pirataria engravatada,
transnacionalizada,
acionista e latimonetária?
Essa tal de minoria 1% do mundo?

Como num blues seco e doído de Freddie King
sunchine sunchine is all all you see now
do fundo da alma
but it all like cloud to me
tudo pode ficar azul num átimo
ótimo de solilóquio naveguidão
que vamos inacabados por aí,
retardatários das alegrias.
É Freddie, bate doído o lanho das cordas secas de sua guitarra,
sunchine is all you see now,
continuaremos essa cabotinagem de poetas vira-latas
atravessando rios e comendo piranhas
que
ao mesmo tempo
nos devoram
que isso sim
é tragar a fumaça da manhã chuvosa
do céu de quem caminha em periferias despatriadas
corda bamba da filosofia de botequim,
a melhor e a mais real delas.

Mas a realidade é bem maior e foi feita para ser falsificada
porque basta acreditar que as guerras são geradas para o lucro
guerras embaladas prontas para entrega
que de novo tudo começa
com crianças crescendo nas brincadeiras de praça
a roda do mundo girando sem parar
e ouve-se o som festivo delas brincando,
mães próximas
com sua missão única de enredarem-se para suas crias:
jamais entenderei um tempo onde mortes de guerra são faturas
e os negócios vão muito bem, sim senhor.

Com o serviço e as mãos sujas,
restou para nós
remoer o cais baldio, chutar o ar,
roer os ossos do pensamento
sem remissão
e sem aceitar essa realidade contrabandeada.

Você aceita o convite do cais baldio?