segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Os anéis azuis do pensamento

Belíssimo poema do poeta amigo Edu Planchêz, extraindo a essência da marginalidade artística, por nada dever ao sistema.


O poeta Edu Planchêz no Sarau Corujão da Poesia
Livraria Saraiva -Baixo Leblon - RJ/2015


OS ANÉIS AZUIS DO PENSAMENTO 
Edu Planchêz


A minha sede de Bhuda se casa com a tua fome,
com a caravana encarnada,
mulher que não me ama ( que me ama ),
mãe que me chama,
que não me chama de filho,
xereca que morde,
que não me morde por ( medo ? )
( por amor adicional de artista extremo? )

Um beijo do tamanho do chão nos seios
da apresentadora do jornal da noite,
Artaud e Diego El Khouri vestidos
de porra nenhuma,
eles tramam burlar bolinar...
ver o lago de antigamente
se elevar nas chamas
do templo da fertilidade
de nossa loucura lisérgica

E os olhos da grande caverna,
e os olhos da veia cava,
das teias do feto que se move nos sonhos
da mãe de Apollinare

Nas alturas das esculturas formas tuas, mãe,
fêmea Tarsila, filha minha, filha da forma,
do grude que nos ata um ao outro

Camille Claudel,sempre fui teu namorado,
teu favo de tinta, tua espátula,
os anéis azuis do pensamento



Blog do poeta: Lábios cariocas

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Fênix

Encontrado em: www.masrawysat.com
 

FÊNIX
 

A. Nassaralla (18/set/15)


Se tantas vezes andei com olhos apagados
se tantas vezes dei-me ao desastre iminente,
emerjo fênix soçobrada
fla-fla-fla-flanando em asas
que se arrastam força acima e além dos juízos
trazendo os pedregulhos seccionados e as mortes sujas
nas penas amassadas que embrulham o novo ao velho,
o casto ao devasso.

Retorno em asas sobre arrasadas de libélulas,
à lembrança dos dias que se fizeram doces vapores da alfazema,
e de outros
com perguntas argutas
infestados do que pode estar por trás de tudo
comprometendo os marasmos aos beijos com as embarcações
e passo e prometo e procuro
nada de santo nos afazeres atracados
das semi-adolescentes sarjetas em que agora asas borboletas
anunciam o fim dos estilhaços
soerguendo arduras curadas pelo pó das asas das mariposas:
por isso tenho em mente
o melhor da promessa paga
indignado com o tanto de documentos
com que vamos nos escondendo pela vida.

As asas que se deveriam enferrujadas
apostam agora, eu-mergulhão, com a facilidade de dar o bote rasante
empinar voo e furar novamente o mar como flecha cometa e,
a pender miragens e suspiros das madrugadas voadoras,
ser o novo querelante das misérias tão simples de cooptar
como, exemplo, as migrações dos mendigos no centro de São Paulo,
ou os refugiados de guerra do Oriente Médio e norte da África,
quando na verdade a mídia é arma de atar mãos
e vendar o mundo
restringindo-nos aos nossos cubículos bem decorados
com gessos, algodão e telas céticas
fazendo do armamento
fetiche e endosso dos nossos dias,
das novas nuvens contra o aparado azul,
do lírio que não precisa obedecer a ninguém,
das asas negras transparentes dos besouros
em que obturo as lentes demais, demais lentes.

Aterrizo: ainda estou vivo de novo agora.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Boca do canal do mar


Alvaro Nassaralla (07/07/15)



Tudo em paz no poente acinzentado da boca do canal do mar.
O sol pediu trégua
e parou de apostar nos números dos diasa começar pelo setembro,
promíscuo,
com dias sem palavra alguma a cumprir,
em que meus xingamentos ultrapassaram a simples perjúria
de mães e orgias,
das noites sem pele.


Livre de novo, arremeto em pura paz,
letargias a que nem sempre estamos capazes
e que agora apeteço-me
no vento afogado de umidade bruta.


Esmolando como aleijado de guerra,
o inverno vai canhoto
e se sente ludibriado
com as raízes tontas e fortes que querem:
a castidade foi um dia presente da primavera.


Tudo em paz na boca do canal do mar.

Volto com a cinzalhada que cabe
nos nervos organizados da maré,
na certeza caçapa como quando tudo está 
no seu lugar
e nas primeiras esperanças
habitantes do mel, dos veios e dos milagres.


A umidade das brisas espanca na boca do canal.
Estão chegando as marias-sem-vergonha nos canteiros finos e nos acostamentos
como uma máquina de crias vegetais
que trazem polens e germens da ventania,
onde a paz sufoca-se
e pode-se até sentir piedade.
Mas a única certeza continua:
os ciclos se sucedem,
e quem fica estanque como uma estação engolida,
subestima as rótulas e o carrossel
da eternidade.


O que há mesmo de tão mal em falar das direções que não levam a nenhum tesouro?

Comigo, o silêncio aveludado do limo.
Tudo em paz na boca do canal do mar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Que uma artista fogaréu venha me amar, tal qual Diego Rivera amou Frida

Poeta Edu Planchêz no Sarau 'Corujão da Poesia'
Livraria Saraiva Leblon
08-set-2015



QUE UMA ARTISTA FOGARÉU VENHA ME AMAR, TAL QUAL DIEGO RIVERA AMOU FRIDA

( edu planchêz )


Mais uma vez sozinho, sumidouro de amores,
andei por demais sonhando
e mordi a coronha de tua arma,
os ossos de teus quadris que fogem,
e o espanto e o desespero
( porque sou humano )
zunem por minhas paredes e portas

Onde eu errei estava o acerto,
onde entortei o nosso falso romance...

Que uma artista fogaréu venha me amar,
tal qual Diego Rivera amou Frida
Tudo começa na grande festa humana

Se John Lennon abriu os portais
para o grande voo dos pássaros azuis dourados,
eu os acompanho
Se eu parar de sonhar,
o que será dos vindouros?


Mais poemas de Edu Plânchez: Lábios Cariocas


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Breve convocação pela eliminação do dinheiro

Imagem: Web



BREVE CONVOCAÇÃO PELA ELIMINAÇÃO DO DINHEIRO


Alvaro Nassaralla
25/ago/15

 
Olho para os tetos esbranquiçados de amarelo
e a tarde, as coisas, o mundo
caminham paralelos
num universo caótico de calma.

A eternidade trava sentido
na mentira que é o capital.

Só o amor está em todas as sementes
suficientes para tratar a covardia
e o despropósito do lucro sem fim.

Proponho agora e em alto e bom tom
a abolição do sistema financeiro:
sejamos de cavar a matrix
em sua essência
e indecência
e buscar que não mais existam escravos em nós.

Só pelo exemplo,
as veredas que calham na afluência dos rios maiores
provam que tudo é invenção
aceita para acelerar o preço do espírito

Quanto a mim, estou.
As folhas secas do inverno desmancham-se em promissão,
trabalham para a terra e para o futuro.

O sol é tão limpo.
Parece mentira
as montanhas vestidas num manto cor de fumaça amarela.

No fim do horizonte
rasgo o sândalo carregado de solidão
ocre, doce e cheiro de terra quente.

– Veja: as orquídeas 'chuva de ouro' são sempre espalmadas:
estão prontas.

Lembro-me do garoto que caminhava olhando para o céu
no único caminho que leva para algum lugar
e aquele garoto era anúncio da mudança,
prometido em tardes fugitivas desdobradas
pelas cirandas e beijos de girassóis.

De mãos dadas,
as infâncias deveriam estar em órbita
vigiando massacres e o poder da ganância,
porque o amor é antônimo de escassez.

Entendo agora quanto e como cintilantes somos
e que existe uma luz
para que expulsemos
os rastros do capital:
é só deixarmos todos de acreditar nele!

O poder está conosco.
O sonho é o mais abundante recurso.

O verdadeiro dinheiro é o que não pode comprar.
As apostas estão abertas
e é o sol quem nos espera.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Vida Bandida


Bernardo Vilhena / Foto: Isabela Kassow




Existe um poeta contemporâneo que é muitas vezes esquecido quando se lista os mais consagrados poetas em atividade: Bernardo Vilhena. 


Letrista de vários dos sucessos gravados pelo roqueiro Lobão, como por exemplo 'Vida Bandida', 'Canos Silenciosos', 'Revanche', 'O Rock Errou', 'Vida Louca Vida', 'Chorando no Campo', Vilhena postou anteontem uma bronca.

Ele se refere a alteração da letra de Vida Bandida que Lobão está usando em seus shows recentes. O músico trocou o refrão que diz Vida bandida para Dilma bandida.

Vilhena disse:

O poema Vida Bandida foi escrito em 1975 e virou canção em 1987. Recentemente, fui alertado sobre uma versão canhestra, machista e covarde que o roqueiro Lobão vem cantando em seus shows, com a intenção de humilhar a presidente da república.

Antes do link para a reclamação completa do poeta, vou deixar o poema Vida Bandida, que é um exemplo do que somente os poetas com culhões podem fazer: 



Chutou a cara do cara caído,
Traiu seu melhor amigo
Bateu, corrente, soco inglês e canivete
E o jornal não para de mandar
Elogios na primeira página

Sangue e porrada na madrugada

Vida bandida

É preciso viver malandro
Assim não dá pra se segurar
A cana tá brava
A vida tá dura
Mas um tiro só não vai me derrubar

Vida bandida

Correr com lágrima nos olhos
Não é definitivamente pra qualquer um
Mas o riso corre fácil
Quando a grana corre solta

É preciso ver o sorriso da mina
Na subida da barra
Aí é só de brincadeira
Ainda não inventaram dinheiro
Que eu não pudesse ganhar



Vou deixar ainda, outro belíssimo poema de Vilhena:


ATUALIDADES ATLÂNTICAS

é preciso viver
atualidades
reconhecer códigos
revirar noites
ser todas as raças
todas as épocas
entrar em todas
as barras
e não sujar
em nenhuma
falando o que querendo
ouvindo o que não querendo
perseguindo a realidade
e a fantasia aí

poesia é momento
em que a gente se encontra
sendo
não por dom
pelo entorpecente trabalho
de pensar no tempo
nos contemporâneos
obstinadamente
feito um tubarão



E, finalmente, o link para o desabafo completo do poeta: 


Ex-parceiro de Lobão em “Vida Bandida” diz que cantor vive “decadência patética”.




Dica do blog Tardes Poemas: 
 
VIDA BANDIDA E OUTRAS VIDAS
Bernardo Vilhena
Azougue Editorial

 

Reunião de poemas publicados na década 

de 1970 com produções mais recentes.

 


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

PEDAGOGIA DA DOR